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Travessia Itutinga - Carrancas
Toda a viagem começa sendo planejada de um jeito, no meio do caminho os planos mudam e no final das contas acaba-se fazendo tudo meio diferente do esperado. A idéia de conhecer Itutinga e o relevo daquela região foi inspirada em um relato do Sérgio Beck obtido na revista Aventura Já. Nessa travessia ele conclui o percurso que ligava Minduri até Carrancas atravessando um longo planalto em meio à vegetação de cerrado típica da região.
Candeia nas pedras da Serra do Galinheiro com Serra de Carrancas ao fundo. A idéia inicial, minha (Paulinho) e de meu amigo (Paulera) era fazer como ele (Sérgio). Mas como toda idéia inicial é tida para ser alterada acabamos decidindo que seria mais prático e mais divertido atravessar duas serras um pouco mais ao norte e realizar a travessia partindo da cidade de Itutinga com destino a Carrancas. A motivação maior dessa mudança nos planos foi a facilidade de se chegar até Itutinga de ônibus, o apoio que tivemos dos responsáveis pelo turismo de aventura e ecoturismo local (Conexão Aventura – www.itutinga.tur.br) e a obtenção de cartas com o relevo de onde pretendíamos passar.
Campo de Altitude com Pico do Cupim ao fundo. Às vésperas da viagem já tínhamos planejado o que levar de comida e quais seriam as vestimentas. Como a travessia seria curta, de três dias (que se tornaram menos de 2), não era necessário fogareiro e refeições mais elaboradas. O frio também não deveria ser problema, apenas de noite no alto da serra. Com isso, a mochila não ficou muito pesada e era confortável caminhar com ela mesmo em terrenos íngremes.
Paulera faz suas anotações. Embarcamos com destino a Itutinga na noite de quinta feira, véspera de feriado, em uma viagem de aproximadamente 6 horas e chegamos no final da madrugada em nosso destino; eram umas 4 horas da manhã ainda. Descansar no ônibus não é uma medida muito efetiva, mas viajar durante a madrugada vale a pena para se ganhar tempo e aproveitar melhor as horas do dia. Logo de cara achamos a pracinha da pequena cidade e aguardamos até às 6:15 quando tínhamos um café da manhã encomendado na Pousada Nascimento, da Dona Léia. Comemos bem, pois dali em diante os recursos seriam um pouco mais... escassos. Em seguida nos dirigimos à sede da Conexão Aventura encontrar a equipe com a qual já havíamos nos comunicado bastante por e-mail (a Internet é fantástica e ajuda muito no planejamento e organização anterior a viagem; tudo que conseguimos para essa travessia foi através dela). A Conexão Aventura é tocada pelo Paulo, Adriana e Chico e levam turistas para conhecer a região, suas serras e seus rios. No nosso caso, apenas nos levariam ao pé da Serra do Galinheiro, distante uns 25Km do centro de Itutinga e a partir de lá seria por nossa conta. Acertamos a carona com eles por R$40 e após umas boas estradas de terra chegamos ao início da travessia que coincide com resquícios da Estrada Real. No entanto, antes de partir fomos recepcionados por uma conhecida do Chico que é a dona do sítio em que estávamos e nos serviu pão-de-queijo e café mineiros. Partimos trilha acima às 10:00 de sexta feira e o sol já estava bastante quente. Inicialmente tomando rumos que nos levavam a oeste, a idéia era atravessar a Serra do Galinheiro, cruzar para a Serra de Carrancas e atravessá-la pela crista em sentido quase oposto ao que fizemos na primeira delas, formando uma espécie de V imaginário (vide foto de satélite do trajeto ao final do relato). À medida que subíamos a vegetação se tornava cada vez mais amarela e se constituía em um misto de vegetação rasteira, arbustiva e pequena árvores de caules retorcidos e com cascas espessas. Esse é o cerrado. Não é a visão das mais belas quando comparada às matas tropicais, verdes e imponentes, mas tem sua beleza em minúcias que devem ser percebidas ao longo do percurso e do contato com o local; exige uma certa sensibilidade e entrosamento do observador com o ambiente e se torna extremamente rico e interessante. Seguíamos com sentido a oeste tentando alcançar a crista da Serra do Galinheiro, onde nos manteríamos até a “ponte” natural que existe para a Serra de Carrancas. Esse foi o momento onde abrimos as cartas da região para nos situarmos com mais precisão e também o momento onde eu tive a capacidade de perder a régua, que fez falta pelo restante da viagem. Em alguns momentos era fácil seguir uma carreira batida no meio do mato mas em outros ela desaparecia e era necessário seguir a direção com base na bússola e principalmente nas referências visuais. Caminhar em serras é mais fácil pela facilidade de se obter referencias visuais que indicam o caminho correto. Todo o trajeto que fizemos poderia ter sido feito sem a ajuda das cartas ou da bússola, nesse caso específico, embora isso não seja nem um pouco recomendável devido a possíveis imprevistos. Seguimos assim por mais alguns minutos até atingir a crista de serra e a primeira das vistas deslumbrantes que nos acompanharam durante os dois dias. Nessa parte tudo sob nossos pés era bastante rochoso; a vista, ao norte se descortinava a Serra do Pombeiro (que emenda na que estávamos) e uma sucessão quase sem fim de morros, morrinhos e planaltos a se perder de vista. O sol castigava e foi providencial a primeira aplicação de protetor solar. Seguimos e mais ou menos em 1 horas de caminhada fácil por sobre a crista encontramos um muro, do qual já haviam nos alertado. Não é uma barreira intransponível e sequer delimita propriedades particulares, felizmente; é uma marco histórico que remonta ao Brasil na época da escravidão, quando Minas Gerais era dividida entre os grandes senhores donos das terras que obrigavam seus escravos a erguer muros de pedras empilhadas, com mais ou menos 1 metro, para delimitar seus domínios. Centenas de quilômetros desses muros ainda podem ser encontrados na região e cruzamos com muitos deles durante toda a travessia. É uma parte importante de nossa história recente (abolição apenas em 1888, lembrem-se) e que resiste até hoje às intempéries naturais e ao apelo turístico (felizmente ainda baixo nessa região). Após isso realizamos uma subida bastante íngreme com o intuito de termos uma visão geral do local, nos direcionarmos e rumamos para o próximo ponto que seriam as Sete Pedras, num local da carta um tanto nebuloso para nós. O sobe e desce era constante até então e por vezes a vegetação chegava a altura da cintura; nesse momento em especial é bom prestar atenção em onde se pisa e ficar atento quanto às cobras, abundantes na região. Conforme progredimos a vegetação mudavam um pouco. Cada vez mais os campos de altitude eram tomados por um capim amarelo e era bonito observar centenas de metros deles a nossa frente, refletindo a luz solar de uma forma prateada incrível. É o cerrado. Aos poucos nos aproximávamos da “ponte” natural e nada de avistarmos as Sete Pedras. Segundo nos informamos é um local caracterizado por pedras empilhadas de forma sui-gêneres e os moradores locais atribuem acontecimentos inexplicáveis e relatos de óvnis a esse ponto. Achamos melhor, pelo avançar da hora (já era mais de 13:00) e por termos alguma necessidade em reabastecer os cantis, seguir pela ponte ao invés de avançar em busca das Sete Pedras o que fatalmente nos tomaria tempo e nos faria voltar pelo mesmo caminho uma vez que estaríamos nos desviando da rota original. No final isso se revelou um erro, pois tivemos tempo de sobra para concluir a travessia. Paciência. Não havia sinal claro de água até o momento e após cruzar a ponte (que se for ponte deve ser pênsil, de tanto sobe e desce, rs...) paramos para observar as nascentes e rios que tínhamos na carta. Com isso e uma observação mais detalhada de uma aglomerado de árvores com bastante folhas (o que não é comum por lá) chegamos a conclusão que descendo nessa direção acharíamos água. Dito e feito. Lá havia uma nascente que segundo a carta era Córrego do Beco e abastecemos todo nosso estoque de aproximadamente 3 litros esterelizando-o com Hidrosteril. Esse produto encontra-se facilmente em qualquer farmácia e bastam 2 gotas e 10min para deixar limpa qualquer água aparentemente cristalina. O desvio nos custou algum tempo, pois o acesso à nascente era um pouco complicado e fechado, mas compensou pois não abastecemos mais até o final da travessia. Estávamos também fazendo uso de um GPS, pelo qual tomávamos nossas medias de altitude, latitude e longitude para nos acharmos na carta e termos mais confiança no que estávamos fazendo. Após o abastecimento de água era preciso tomar o topo da Serra de Carrancas e seguir por ela a leste até encontrarmos uma estrada de asfalto que levaria a Carrancas (o que só ocorreu no dia seguinte). O acesso foi complicado e bastante íngreme e em pouco tempo ganhamos uns 100m de altitude e já recuperamos a vista que nos guiava, margeando as encostas, para o sentido correto. O terreno voltou a se tornar rochoso e a vegetação era mais tímida por entre as pedras. Essa paisagem não durou muito e logo demos de cara com uma pequena floresta. Ela parecia que tinha sido colocada ali por algum motivo, tamanha a diferença dela para o restante da vegetação que havíamos encontrado até então. Procuramos alguma forma de contorná-la sem perder a crista da serra e chegamos a conclusão que o melhor e mais rápido seria atravessá-la tentando não perder o rumo leste. De um modo geral, não foi difícil mas foi um pouco chato atravessar se esquivando dos galhos e passando por umas partes mais fechadas. Dentro da mata haviam caminhos levemente marcados e que facilitavam na hora de escolher o percurso e bastaram alguns minutos para que conseguíssemos atravessar e sair do outro lado, retornando a vegetação normal, solo pedregoso da montanha e o sol forte. A Serra de Carrancas segue o estilo da Serra do Galinheiro que estávamos, com a diferença de ser mais larga no sentido norte-sul, possuir a encosta norte bastante íngreme, no estilo paredão, enquanto a encosta sul é mais suave e vai descendo de forma contínua e constante em direção ao estado de São Paulo. Decidimos seguir mais umas 2 horas antes de montar acampamento e naquele momento definimos como objetivo encontrar o Morro do Cupim que segundo informações deveria proporcionar um bom local de camping com água limpa a vontade. Conforme avançávamos ficava claro que não sabíamos onde era o tal do Morro do Cupim e após tentativas frustadas de encontrá-lo, que consumiram energia extra, pois nos tiravam um pouco da rota, resolvemos esquecê-lo e procurar lugar plano e liso para a barraca. A essa altura o cansaço já modificava um pouco o humor de ambos e era realmente hora de descansar, fazer uma refeição mais consistente e dormir até bem cedo no outro dia. O tempo ia passando e nada de chegarmos a uma conclusão definitiva sobre qual daqueles morrotes deveria ser o do Cupim e muito menos para que lado e direção ele realmente deveria estar. Como o cansaço já era grande decidimos desistir e procurar um outro lugar para montarmos acampamento. Essa decisão foi correta embora tenha sido complicado encontrar um lugar razoável para dormirmos. A vegetação da região é constituída basicamente por arbusto e um capim que nasce em tufos por toda a parte que inviabilizam qualquer idéia de uma boa noite de sono. Decidido
o lugar, encontramos nossa localização na carta e fomos comer algo; pão
de forma com milho e atum é um a boa pedida; energético e protéico na
medida certa, esse tipo de alimento é também fácil de transportar.
Dormimos um sono horrível; o desconforto gerado pelos tufos embaixo da
barraca e pelo frio calamitoso que fazia no topo da serra foram responsáveis
por uma experiência não muito boa. De qualquer forma, acordamos
revigorados e lá pelas 7:00 já iniciávamos um novo dia de caminhada. De acordo com o estudado na carta, acampamos em uma encosta um pouco mais baixa da serra, de forma que o ideal seria ganhar altitude logo nos primeiros passos do dia seguinte e assim seguir realmente pela crista, onde a orientação é mais fácil e a vista mais bela. Sendo assim, desmontamos e guardamos o acampamento e começamos o dia subindo uma bela encosta de terra, bastante íngreme, que em poucos minutos nos fez ganhar uns 50/75m de altitude até um novo patamar. Decidimos seguir por essa curva de nível, sempre mantendo o leste como nosso alvo. A orientação no começo do dia foi prejudicada por um denso nevoeiro que se instalou na serra. Não tínhamos o auxílio do GPS, que não recebia sinal nessas condições, e a orientação visual estava bastante prejudicada. Dessa forma, a bússola era a salvação e as trilhas de bois, confusas, eram às vezes uma ajuda e outras, uma armadilha. Com o transcorrer da manhã o nevoeiro foi dispersando. Voltamos a ter sinal de GPS e tudo ficou mais simples. Nos preocupávamos apenas em não perder a borda norte da serra, nossa principal referência, e seguir por trilha mais batida para não desperdiçarmos muita energia. Mais à frente, a trilha que seguíamos desembocava em uma estrada de terra, mais larga, que vinha da encosta sul da serra e provavelmente é usada por jipeiros e praticantes de motocross. Passamos a seguir por ela e a caminhada seguia fácil, exigindo um pouco mais apenas na hora das subidas que não eram em geral muito complicadas; bastava manter um passo firme, uma boa postura, a mochila bem presa às costas e seguir. Fizemos algumas paradas para fotos da vista e para observar as rochas da região, algumas com características bem singulares. Já não encontrávamos mais os antigos muros construídos pelos escravos e a vegetação tinha se tornado ainda mais árida, com poucos locais sombreados, muita terra nua exposta, vegetação extremamente rasteira e nenhum ponto de água! Racionamos por segurança a água que foi coletada no dia anterior. No final tudo acabou dando certo e não chegamos a passar sede. De acordo com informações, deveríamos seguir pela crista da serra, cruzar uma estrada de terra que transpõe a serra, passar ao lado de uma rampa de asa-delta e logo mais encontrar a estrada de asfalto que nos guiaria até Carrancas. Todos esses passos sucederam-se sem demais preocupação, bastando para isso estar sempre atento à bússola e consultando de hora em hora a carta topográfica, para termos certeza da situação. Chegando ao asfalto já sentíamos o calor; aplicações de protetor solar fator 30 já tinham sido necessárias e o conforto iminente que a proximidade com a civilização propunha nos fazia perder um pouco da coragem trilheira. Como andar em estrada de asfalto não é muito agradável, resolvemos pedir carona e rapidamente conseguimos subir numa pick-up de um rapaz que, gentilmente, nos levou até um camping alguns quilômetros a frente. Lá usamos os banheiros, tomamos uma cerveja gelada, comemos algo e tomamos banho num rio que passava ali do lado. O primeiro banho da travessia. Lá pelas 14:00 decidimos completar o que restava de estrada de asfalto até carrancas (uns 2km) e como não conseguimos caronas fizemos a pé mesmo. Chegamos na cidade, descansamos, sacamos algum dinheiro e conseguimos uma carona com o dono de uma distribuidora de bebidas, até Itutinga, no final do dia. Passamos a segunda noite na pousada Nascimento (onde tomamos café no primeiro dia) e, ao terceiro dia, logo pela manhã pegamos o ônibus para São Paulo, cujas passagens já estavam compradas desde nossa chegada. Antecipar ao máximo as passagens de ida e volta é altamente recomendável, pois essa linha atende diversas cidades de Minas Gerais, gerando uma inesperada demanda (que, aliás, nos pegou de surpresa).
As fotos da travessia estão em: |